Dia 08/04, as 19:44h, acabo de conhecer o que viria a se tornar a maior aventura da minha vida: Joaquim! Em menos de 10 segundos, pude sentir o amor mais puro numa experiência primitiva e espiritual que nunca imaginei que pudesse sentir.

Um pouco mais de 20 horas antes, minha esposa e eu estávamos em casa em uma sexta-feira comum. Quando digo comum, quero dizer comum para uma grávida na 41ª semana de gestação. Em outras palavras, uma sexta-feira cheia de dores nas costas, limitações de locomoção e de vez em quando um certo mau humor. Consequentemente isso se reverte em massagens nas costas, inúmeros fretes da cozinha para o quarto e um “desculpa, meu amor” quando ela fala que não sei fazer massagem. Tudo bem! Afinal, isso não é nem dez por certo do que ela vem passando há 9 meses. Por volta das 23:00h, ela estava se trocando no banheiro quando uma quantidade pequena de liquido caiu no chão. Imediatamente ela olhou pra mim já sabendo que essa sexta-feira tinha passado de “comum” para “não quero mais brincar disso”. Fui até o banheiro para ver e cheirar o liquido. Isso mesmo, eu havia aprendido que para saber se era o líquido amniótico, teria que cheirar e sentir um cheiro “doce”. De fato, era o líquido amniótico e quase que imediatamente, vem a primeira contração. Por mais informado que você possa estar ou ter feito a maior quantidade de cursos possíveis (cuidados na hora do parto, primeiro cuidados com o bebê, etc.), é impossível não sentir uma certa insegurança. Não é somente pelo eventual “trabalho” que o parto possa demandar, mas é a certeza que a partir daquele momento, começa a morrer o menino para nascer o pai.

A recomendação de todos os profissionais da área é que nessa hora, a mãe tente dormir e se alimentar para se preparar para o parto, pois é impossível saber quanto tempo ou esforço o parto demandará. Mas quem consegue dormir numa hora dessas? Bom, eu! Sempre fui muito bom em dormir. E por isso, fui rapidamente dormir, pois sabia que seria responsável por um grande esforço físico e mental. Nesse ponto eu gostaria de chamar a atenção dos pais, pois realmente nós temos uma grande responsabilidade nessa hora. Sempre pensei que a minha participação no trabalho de parto fosse atender as solicitações da mãe e na verdade, a real contribuição do pai é que nós possamos levar a solução, antes que a mãe possa precisar. A mãe tem o papel mais importante e difícil, no qual em meio a contrações e dificuldades físicas, tenta se conectar com seu corpo para que possa se transformar. Entendendo isso, o pai tem a obrigação de deixar o ego de lado e participar de uma forma ativa, provendo qualquer tipo de recurso necessário.

Bom, voltando um pouco, enquanto eu dormia, a mãe se descabelava. Um pouco mais de meia noite, ela teve um pequeno sangramento. Isso não estava em nenhum roteiro ou curso sobre parto, o que causou grande preocupação. Quando era mais ou menos umas 4:00h da manhã, acordei com a mãe falando ao telefone em tom preocupado. Ela estava falando com o médico que teve mais sangramento e estava muito insegura. Foi quando o médico recomendou que fôssemos ao hospital já com todas as malas. Chegamos ao hospital as 5:00h da manhã para passarmos em consulta. Não espere uma recepção amigável. A enfermeira que nos recepcionou estava inconformada que a mãe estava na 41ª semana e tendo contrações há 6 horas, não havia corrido para o hospital. Disse o sangramento era decorrente de algo grave que poderia ter acontecido. Essa é a hora de praticar a entrega e confiança. Após todos os exames realizados, a mãe e o bebê estavam bem e os resultados estavam normais. Chupa enfermeira! As contrações aconteciam de 5 em 5 minutos e duravam cerca de 25 segundos. Sim, não esqueçam de baixar os aplicativos para monitorar as contrações! Como a mãe se sentia bem e não sabíamos quanto tempo poderia demorar para que as contrações aumentassem, resolvemos voltar para casa para evitar de ficar muito tempo no hospital. Por sorte, já tínhamos uma consulta marcada com o médico para esse mesmo dia e fomos direto do hospital. A situação era normal com a perda do líquido em certa quantidade, mas não total.

Saindo da consulta, fomos almoçar em um restaurante japonês para armazenar energia. Acho que armazenei mais que o necessário. Voltamos para casa e tentamos descansar. Com a notícia de que estava tudo bem, a mãe conseguiu descansar um pouco e estava mais tranquila, ainda que as contrações continuassem. A quantidade de fretes e massagens aumentou de forma drástica nessa hora.

Por volta de umas 14h00 do sábado, as contrações começaram a ser mais fortes e mais longas com intervalos menores. Duravam cerca de 45 segundos e aconteciam de 3 em 3 minutos. Nesse momento, era hora de pôr em prática tudo o que eu havia lido e aprendido nos cursos, pois oficialmente estávamos na fase ativa. Alongamentos, movimentos, carinhos e mais massagem. Muito mais! Eu estava totalmente entregue a esse momento e estava disposto à superar qualquer coisa. Me sentia confiante e consciente da minha importância em todo esse processo. Vez ou outra, fazia questão de me aproximar do seu ouvido e dizer que a amava muito e que estaria com ela o tempo todo. Incrível a conexão do casal nesse momento. E altamente recomendável!

Tudo o que estava acontecendo já era de conhecimento da equipe de parto, pois enviávamos as informações por mensagem constantemente. As 15:00h, quase toda a equipe estava em casa para prestar assistência. As contrações estavam muito fortes e depois de duas horas, decidimos ir para o hospital novamente. Eu estava muito apreensivo no caminho, pois o hospital ficava a 50 minutos de casa e a mãe estava sentindo muita dor no banco de trás com os buracos no caminho. A nossa doula também estava no banco de trás e teve uma participação importante em tentar aliviar a sua dor com muita massagem. Talvez tivesse sido melhor se a decisão de ir para o hospital fosse um pouco antes. Chegando lá, fomos atendidos direto e queríamos subir para o quarto o mais rápido possível. Infelizmente, tive que preencher e assinar um monte de papel, mas subimos rapidamente. Talvez porque as enfermeiras não aguentavam os gritos da mãe no meio da recepção.

Entrei no vestiário para me trocar. Parei um momento em frente ao espelho para agradecer tudo o que estava acontecendo e pedir proteção para que tudo corresse bem. Eu estava muito ansioso e com força para levantar um trem. Corri para a sala de parto e quando entrei, a mãe já estava na banheira. Se eu soubesse, nem teria me trocado. Entrei com ela imediatamente para poder tentar aliviar a dor. Levei vela, pedras de energização e até um Budha para fazer uma meditação. Tudo em vão! Quando entrei na banheira, a expressão de dor era tão grande que se eu sugerisse uma meditação, poderia perder um dente. Melhor deixar na mala mesmo. A mãe estava com tanta dor que começou a pedir anestesia. O bebê já estava totalmente encaixado, mas essa dor estava acabando com ela e comigo. A equipe nos deu apoio emocional e físico para que pudéssemos aguentar e conseguimos ganhar um pouco de tempo.

Ficamos na banheira por mais ou menos uma hora e a todo momento, eu tentava aliviar a sua dor com massagens e carinhos. Abraços e beijos também são muito bem vindos nessa hora. A água funcionou parcialmente, mas optamos por tentar um pouco de movimento para ver como o parto poderia progredir. Andamos um pouco pelo quarto e testamos algumas posições e nada desse bebê dar sinal de aparecer. A melhor posição que encontramos foi deitada na cama, pois estávamos vendo mais resultado no expulsivo quando ela fazia força.

Há mais de 24 horas sem dormir e muitas horas sem comer, a mãe pediu definitivamente a anestesia. Eu até tentei argumentar, mas via no seu olho que era um pedido sincero e necessário. Até porque a parte mais complicada é fazer força no momento da contração. É como se a dor duplicasse. Então, tomou a anestesia, mas ainda sentia dor.

Quando a anestesia fez efeito, a dor diminuiu e foi a hora de começar a fazer mais força. Eu segurava na mão dela tentando dar uma energia extra e as forças começaram a dar resultado. Já era possível ver os cabelinhos e agora faltava pouco. O coração acelerado mostrava que a hora estava chegando. Após algumas contrações mais, saiu somente a cabeça. A mãe não acreditou e pôde pela primeira vez, sentir o seu filho. Enquanto isso, eu estava de frente para o meu filho esperando que ele saísse, mas estava muito inseguro. Não sabia se daria conta de pegá-lo, pois tinha medo que algo acontecesse. Foi quando o médico olhou para mim e disse: “Vem, eu estou te suportando”. Senti uma força interior e agora eu só queria pegar meu filho no colo. Nada poderia acontecer de errado. A próxima contração veio e junto com ela, uma força desumana. Foi quando os dez segundos começaram a contar e de repente, meu filho estava nos meus braços. Olhei para a carinha dele e um amor espontâneo tomou conta de mim. Coloquei ele no peito da mãe e senti uma sensação única de plenitude. As 19:44 de um sábado não tão comum, embarquei numa nova jornada de evolução. Joaquim, saudável e ariano. Seja bem-vindo!

Um agradecimento especial para toda a equipe:

Suellen – Doula dedicada e extremamente profissional. Sempre disponível e atenciosa. Explica tudo em detalhes com muita segurança e conhecimento. Gratidão!

Mariana – Enfermeira confiante e com senso de humor capaz de aliviar qualquer dor. Também foi responsável por comer minhas batatinhas fritas, mas está perdoada. Gratidão!

Roberta – Altamente responsável e comprometida. Ainda que o universo humanizado não fosse sua zona de conforto, foi capaz de se dedicar para aprender e nos apoiar nos momentos mais necessários. Gratidão!

Evellyn – Fotógrafa. Ainda que nova, tem a maturidade e consciência invejáveis. Se envolve de forma íntima e com suas palavras, consegue atingir a alma. Gratidão!

Paulo – Nosso médico. A química bateu desde a primeira consulta. Capaz de nos dar confiança nos momentos mais necessários e permitiu que pudéssemos construir esse trabalho juntos, sem nenhuma imposição. Gratidão!

E também não poderia deixar de agradecer a mulher que permitiu que tudo isso se realizasse. Mulher corajosa, comprometida e com uma pureza no coração que se vê facilmente. Sempre disposta a superar seus limites para o bem do nosso filho. Com muito amor e entrega, conseguiu deixar de lado seus maiores pudores e crenças. Fez morrer uma menina para nascer uma mãe que segue com segurança seus instintos e intuições. Muito obrigado por fazer parte da minha evolução e me dar a maior aventura da minha vida. Te honro e te amo! Serei eternamente grato.