Relato: Diogo Brandau Signoretti (Esposa Tessa; filhos Niklas e Thor).

1. Como foi o processo de escolha pelo parto normal humanizado? Decidiram juntos? Participou da decisão? Embarcou nesta escolha logo de cara ou teve que amadurecer a ideia?

Sempre fui muito tranquilo sobre a questão do parto normal. Acho que isso se deve a minha história familiar. Eu e meu irmão do meio nascemos de parto normal, enquanto o mais novo nasceu de cesárea de emergência. Cresci ouvindo minha mãe dizer que, na experiência dela, o parto normal era melhor para a mulher e para criança (aqui sem desmerecer a cesárea quando efetivamente necessária). Certamente a postura de minha mãe me influenciou, pois sempre tive simpatia pelo parto normal e o via, com perdão do pleonasmo, com muita naturalidade.
Todavia nunca havia pensando no parto normal humanizado até minha esposa engravidar de nosso primeiro filho. Por ela ser europeia, a visão sobre o parto dela se distingue muito daquela praticada, em regra, no Brasil. Na cultura europeia a autonomia da mulher é, geralmente, um valor mais caro à sociedade do que na América Latina. Isso se reflete, obviamente, nos direitos da mulher na hora do parto, no respeito a sua autonomia.
Ademais, o processo de parir é visto por lá como algo muito importante, único e feminino, havendo, usualmente, muita resistência à cesárea (por parte das mulheres e da comunidade médica), por ser ela vista como uma cirurgia que deve ser apenas utilizada em casos de perigo à mãe ou ao bebê. Isto porque por lá o momento do parto, na verdade o processo de dar a luz e não o mero nascimento, é algo muito valorizado, visto como uma experiência única e necessária a ser compartilhada pela mãe e bebê e, mais recentemente, pelo pai.
Assim, para minha esposa, a concepção de parto normal não era separada do adjetivo “humanizado”. Era simplesmente isso que ela desejava. Ela queria passar por este processo e curti-lo o máximo possível. Eu sempre tive uma postura muito respeitosa em relação à autonomia dela e o fato de eu ter familiaridade e muita simpatia pelo parto normal fez com o que escolha fosse bastante tranquila. Desde o início ela me incluiu no processo e fez com que eu quisesse efetivamente dele participar.
Mas o problema não foi a escolha, mas a realidade. Por ingenuidade e por falta de conhecimento, achávamos que o parto dela seria como nós queríamos e que poderíamos compartilhar aquele momento mágico, afinal de contas era ela que iria da à luz e, numa situação de normalidade, nossa vontade deveria ser respeitada, pois as pessoas estavam lá para nos auxiliar, mas não para ditar as regras de um evento natural, em que procedimentos e medicamentos apenas deveriam ser usados com o consentimento da parturiente ou por estrita necessidade médica.
No fim tudo foi diferente do planejado. Ao fim da gestação, tomamos conhecimento que minha esposa não poderia escolher se tomaria anestesia ou não, se sofreria uma episiotomia ou não, se tomaria hormônio ou não. Tudo estava planejado e a parturiente não tinha direito a sequer discutir com seu médico quando ela iria dar a luz. Pais de primeira viagem, não tivemos coragem de trocar de médico faltando apenas duas semanas para a chegada do bebê.
Mas o bebê atrasou e o médico queria marcar a cesárea. Conseguimos adiar até o dia em ela completava a 41ª semana, quando então nosso primeiro filho nasceu de cesárea com hora marcada em uma maternidade elitizada de São Paulo. Ele nasceu saudável e forte e ninguém perguntou se queríamos pegá-lo. Foi imediatamente levado para ser examinado e limpo, sem sequer ser mostrado a minha mulher que estava dando a luz. Voltou depois de examinado, após terem feito vários procedimentos sem nossa autorização e todo embrulhado. A mãe sequer pôde vê-lo como veio ao mundo. Não bastasse isso, foi levado em seguida para tomar banho e ficar em observação no berçário ainda que saudável. Em outras palavras, mesmo tendo acabado de ter nascido e necessitar nada mais do que vir para o colo da mãe, ficou dela separado por mais de 4 horas.
Descobrimos, nesta hora, que o sistema no Brasil é muito mais duro e desrespeitoso do que podíamos imaginar. Achávamos que, na ingenuidade, a questão da cesárea no Brasil ocorria porque assim as mulheres queriam e quem quisesse diferente, bastava querer. Não foi bem assim.
Logo, na gravidez de nosso segundo filho, desde o início, fizemos tudo diferente. Pesquisamos muito por médicos e hospitais. Ainda que fosse uma cesárea, queríamos ser respeitados. A busca pelo parto normal humanizado foi, então, algo muito forte. Queríamos que desta vez fosse diferente da primeira. E, para isso, tínhamos que nos cercar de cuidados, o que fez com que a opção fosse muito mais consciente e certa.

2. Porque escolheram este tipo de parto: parto normal humanizado? O que representa para você o parto humanizado?

Queríamos que nosso filho nascesse tranquilamente e em segurança e desejávamos muito compartilhar e curtir todo o processo, todo o parto. Sabíamos que era um momento mágico e que teria um significado especial.
Partindo deste nosso desejo, o parto normal humanizado, para nós, era o que representava melhor o respeito à autonomia da mulher e do casal, pois víamos o parto como um evento natural (não patológico), íntimo e único, no qual as interferências médicas, num quadro de normalidade, seriam discutidas conosco e por nós consentidas, o que nos permitiria aproveitar dessa experiência extremamente emocional.
Portanto, a postura médica no parto normal humanizado (ainda que fosse cesárea uma por recomendação médica) nos dava a certeza de que seríamos respeitados, participaríamos deste momento único e dos mais humanos que existe como desejávamos.

3. No que está escolha te mudou como homem?

Reputo muito difícil responder uma pergunta dessas, até porque acho a formação de um homem é fruto de uma série de fatores difíceis de sintetizar. Mas o que eu posso dizer é que a participação mais ativa num parto e no nascimento de uma criança reforçou em mim o respeito e admiração pelas mulheres, em especial pela minha esposa, pois o parto sintetiza de uma maneira muito acentuada a força e a coragem delas, bem como me tornou mais consciente da paternidade e do meu papel para meus filhos. Além disso, tenho para mim, que ao presenciar algo tão instintivo e humano ao mesmo tempo, vi que temos, desde a hora que nascemos, necessidades fortes de contato, de apego, de afeto que não podem ser ignoradas e que precisam ser tratadas com muito cuidado e carinho. Isso ficou patente ao ver meu filho, ainda com o cordão umbilical pulsando, se acalmar imediatamente ao ser posto em contato com minha esposa.

4. No que o processo do parto te acrescentou ou te transformou ?

Considero esta uma das perguntas mais difíceis de responder. Até o momento estou processando a vivência e é difícil de por isto em palavras, de nomear sentimentos tão complexos e densos. Participar desta entrevista, inclusive, me mostra que ainda estou “processando” o parto. O que eu posso certamente dizer é que foi algo muito intenso e mexeu comigo.
O fato de eu ter passado por duas experiências bastante distintas, uma cesárea com hora marcada e um parto normal humanizado, acentua a minha percepção de que a segunda experiência foi extraordinariamente intensa, quero dizer, um processo intenso, e não apenas um momento.
Ao olhar para trás, noto que no nascimento de meu primogênito eu não fiquei processando o parto em si. Eu assisti o nascimento. Eu não participei. Foi tudo muito rápido. Ele nasceu, de repente estava lá. Não pensei muito nisso após o nascimento. Voltei-me para ele. Eu tinha me tornado pai e aquele amor infinito por aquele serzinho estava ali. Estava feliz. Pronto.
Já o nascimento do meu segundo filho foi muito diferente. Tudo aconteceu no tempo do bebê e da minha esposa. Eu participei muito e intensamente de todo processo e tudo transcorreu tranquilamente e conforme tínhamos desejado. Após o parto ele veio direto para os braços da minha esposa e para o meu, do jeito que nasceu. Eu estava exausto, física e emocionalmente, depois do parto. Nunca tinha pensado que poderia ficar assim. Mas estava extremamente feliz. Tentando verbalizar a experiência agora, noto o quanto ela foi emocional.
A forma de nascimento, obviamente, não interfere na intensidade do meu amor pelos meus filhos, nem na felicidade em tê-los. Por isso me pus a pensar e refletir no que esta experiência me mudou, porque gostei tanto dela.
Sinto que, entre várias coisas, o processo do parto normal humanizado me trouxe para mais próximo de minha esposa, tornou nossa ligação ainda mais forte. Tivemos que conversar, previamente, sobre muitos detalhes e desejos, o que já era um grande exercício de amor e respeito. Depois, quando o trabalho de parto se iniciou, o fato de compartilhar e participar concretamente de um momento tão intenso, se não o mais intenso de nossas vidas, me pôs mais perto dela, mostrou-me a força de nossa relação.
Além disso, é inegável que imediatamente após o nascimento, com o bebê em nossos braços, pudemos compartilhar e curtir momentos únicos e só nossos de uma maneira que jamais imaginei. Foi uma sensação muito boa, amorosa e tranquila. No nascimento de meu primeiro filho, eu fiquei sozinho, porque minha esposa foi para a sala de observação e meu filho para o berçário. Deste modo, além de rapidez do evento, tive de processar tudo sozinho e, posteriormente, reconstruir o nascimento junto com minha esposa e depois com nosso bebê, que chegou no quarto por último. Já no parto do segundo, pudemos compartilhar e vivenciar todo este turbilhão de sentimentos juntos, como família, sem muitas palavras, mas com muito calor humano, pele e abraços.

5. O que significou como homem ver o teu/tua filho(a) nascer de forma respeitosa?

Para mim, proporcionar para minha mulher um nascimento como ela, enquanto mulher, e nós, como casal, desejávamos foi uma forma de reafirmar meu amor por ela e de reforçar nosso vínculo. Amor e respeito andam sempre juntos e, numa hora tão íntima, intensa e única, o respeito é essencial.