Paciente:  Verena
Esposo: Rodrigo
Bebe: Lorenzo

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Passei minha gravidez encantada com vários relatos de parto. Não só porque me ensinavam e me empoderavam para quando chegasse a minha hora, mas porque cada um deles me mostrava uma importante lição –  sobre parir, sobre o parto ser da mulher e do bebê, sobre o nosso falido sistema obstétrico, sobre respeito… Todos os relatos conversavam comigo e aí que chegou a minha hora.

E eu poderia contar sobre as descobertas que fiz ao longo da gravidez – a escolha da equipe, a fatídica visita aos hospitais do plano, a dúvida sobre parto domiciliar, as leituras sobre amamentação e puerpério. Mas prefiro contar sobre a principal lição que levei da minha experiência: nunca deixar que ninguém diga que você não pode parir até que chegue a sua hora e que você viva seu parto.

Mesmo me considerando dona do meu parto, na 38a semana, caí no conto de uma médica do ultrassom que me disse que meu filho era muito grande. Aliás, passei a gravidez ouvindo isso quando mediam meu bebê nos exames. Àquela altura, o Lorenzo, meu bebê, já estava com estimativa de 4,1 kg e, segundo aquela médica, tinha uma cabeça grande, e ela me “assegurou” que ele não passaria pelo canal de parto. Veja: ela só faz ultrassons, ela não me conhece, eu mal via a cara dela porque a luz da sala de exame fica apagada, ela não sabia da minha história. Mesmo assim, ela ignorou evidências médicas e conseguiu colocar atrás da minha orelha a pulga de insegurança. Claro que me arrependo de não ter argumentado com ela na hora.

Saí da sala de exame desnorteada. Tentava focar na célebre frase “mulheres sabem parir, bebês sabem nascer”. Liguei pra Mari, nossa doula, e chorei tudo que tinha pra chorar. Ela me lembrou que a única coisa que importa é a prova de parto, ou seja, precisamos ver na hora o que ia acontecer, e que bebês grandes nascem sim, senhor.

Mesmo assim, se eu pudesse, faria o necessário para acelerar o trabalho de parto. E se ele fosse mesmo grande, e desse uma desproporção? Se ele não conseguisse descer? Se meu corpo não tivesse sido feito pra isso? Aí é que está… como diz a canção: “aconteceu de eu ser gente e gente é outra alegria”. Nós não comandamos nosso corpo. Eu já tinha tido essa lição depois de 18 meses tentando engravidar.

Respirei fundo, e decidi que não faria outro ultrassom. Pelo menos não ali no hospital mais cesarista do mundo! Retomei meu equilíbrio e foquei no plano que eu e minha equipe havíamos traçado.

Entramos na 39a semana e tudo acontecia no mundo, menos o nascimento do meu bebê. Passaram Natal e Ano Novo e parecia que eu estava grávida há dois anos. Para evitar mais insegurança, passei a maneirar na alimentação para que o Lorenzo não ganhasse mais peso exageradamente. Tentava manter uma rotina de caminhada, yoga, atividades para distrair, mas a ansiedade batia forte.

Como eu estava encanada com a questão do peso, decidimos junto com o Paulo, nosso obstetra, iniciar algumas ações naturais de indução: caminhadas, acupuntura, comidas apimentadas, chás diversos e por aí fomos. Eu estava empenhada e fiz tudo de acordo com as receitas. E, ainda assim, a cada novo dia, lá estava eu, grávida ainda.

Na consulta semanal com o Paulo, fizemos um descolamento de membrana e pelo exame de toque vimos que eu já tinha 4 de dilatação! Pra mim, era um fôlego, algo já acontecia dentro de mim. Combinamos de eu seguir nosso plano e que faríamos um novo descolamento de membrana dali a alguns dias. Depois disso, meu tampão mucoso saía aos montes e apareciam contrações, mas sem dores e sem ritmo ainda. Eu estava nos meus prodromos!?!!!

Dias depois, no segundo descolamento de membrana (como incomoda!), eu tinha evoluído mais um pouco e tinha 5 de dilatação. Era terça, e eu sabia que podia levar mais uns dias. Mesmo assim estava feliz porque era um trabalho de parto latente. A lua já ia virar pra cheia e algo me dizia que meu bebê nasceria logo.

Mais três dias, a lua virou para lua cheia, passamos a 40a semana e nada. Eu não queria mais sair de casa, porque as pessoas não sabem lidar com uma grávida de dez meses! Meu aniversário se aproximava e — embora eu AME comemorar, neste ano, a única coisa que eu tinha planejado pra essa data era ter o Lorenzo já comigo. Se ele não nascesse, as pessoas iam me ligar pra parabenizar e eu não queria falar com ninguém. Aliás, eu parecia um bicho antes de parir: me isolei, queria ficar sozinha, não queria conversar. Custou pro marido e pra minha mãe (que já estava aqui pra ajudar havia alguns dias) entenderem que não precisavam me perguntar a toda hora se eu estava bem.

Na véspera do meu aniversário, com 40 semanas e 3 dias, falei com o Paulo e com a Mari e decidimos juntos: internaríamos no sábado, meu aniversário, pra começar uma indução. Eu estava insegura e me preocupava com uma possível desproporção do bebê. Agora me dou conta de que, para o Paulo topar e sugerir uma indução, ele também devia estar preocupado.

Para me ajudar a acalmar, o Paulo também sugeriu uma despedida da barriga, um pequeno ritual pra destravar medos e inseguranças que, queiramos ou não, ficam dentro da gente neste momento. A Mari veio até em casa pra uma visita, um café, um abraço amigo. Falamos sobre o quanto eu deveria me entregar, deixar meu corpo falar, o quanto ele é sábio. Ela me perguntou sobre meus medos da maternidade, sobre minha relação com próprio nascimento e me fez um belo escalda-pés, uma massagem e me ajudou a meditar no quartinho do Lorenzo. Eu consegui me acalmar e me reconectar com tudo o que sonhei a gravidez inteira. Respirava como havia treinado nas aulas de yoga, rezava pra Nossa Senhora seguir intercedendo nos planos maiores que Deus tinha pra nós. Chegamos até a escrever nossos medos em papéis e queimá-los. Eu tinha medo de não dar conta, de não ter paciência com meu corpo, de o Lorenzo sofrer. Tudo foi embora com o fogo. Muito único e especial.

A Mari foi embora e pedimos uma pizza. Eu já não estava mais ansiosa, eu estava esgotada, cansada, não queria comer. Troquei mensagens com uma amiga de fora que estava em SP, e combinamos de ela vir tomar café com a gente no dia seguinte. Cheguei a brincar com ela “combinado, a não ser que o Lorenzo resolva nascer hoje”. Fui dormir cedo.

As 03:40 senti um estourou dentro de mim. Ploc! Era a bolsa e eu custei a acreditar. Fui ao banheiro e senti a tal dor inacreditável que todos comentavam que me faria saber que era trabalho de parto ativo. Fiquei feliz porque sabia que era uma dor que traria meu filho pra mim, pra esse mundão! Voltei pra cama e o Rô, meu marido, tinha despertado para perguntar o que houve. Quando ouviu que era a bolsa, ele pulou da cama e começou a se arrumar.

As dores engataram numa sequência insana e perdi a noção do tempo. Lembro de chamar por Nossa Senhora muitas vezes. Entrei no chuveiro e a água me trazia um alívio momentâneo entre as contrações. Nas pausas, eu ia dando ordens para o Rô: liga pra Mari, liga pro Paulo, acorda minha mãe, coloca as coisas no carro. Não sei de onde tirei sanidade.

Quando tomei coragem e saí do chuveiro, a Ana, nossa obstetriz, já estava na sala. Pra mim tinha sido muito rápido! Com toda a calma, a Ana me deu um sorriso gostoso, um abraço apertado e um feliz aniversário. “Que dia bonito pra nascer”, ela dizia. Nossa, é mesmo, era meu aniversário! Ela me examinou e perguntou se eu queria saber a quantas andava minha dilatação. Eu não queria! Minha mãe preparou um ovo mexido e umas torradas, enquanto o Rô colocava as coisas no carro. Permanecia de olhos fechados tentando lembrar a Ave Maria, que me escapava. Chegou a hora de ir para o carro e lembro o quanto respirei pra não pirar de dor no elevador.

No caminho pra maternidade, o Rô me pediu pra não surtar e me conta que houve uma pequena mudança de planos e que estávamos indo para outra maternidade, já que o Paulo estava lá em outro parto. E emenda: teríamos uma pediatra backup porque a Silvia, a neonato que escolhemos, também estava em outro parto em um hospital diferente. Respirei fundo mais uma vez e larguei mão do que não podia controlar: agora eu estava parindo e não dava pra lamentar a mudança de planos. Agora eu precisava confiar – no meu corpo e na minha equipe, que sabiam certamente o que estavam fazendo. Lembro ainda de corrigir uma rua que o Rô pegou errado, e da Ana rindo de mim que dava conta de pensar no caminho enquanto tinha contrações homéricas.

Chegamos na maternidade e não dispensei a cadeira de rodas na recepção. Tinha a impressão de que não aguentaria mais um passo. Respirava, chamava por Deus e permanecia de olhos fechados o tempo todo. Na triagem, ouvi a médica do plantão dizendo que minha dilatação estava entre 7 e 8! Não podia acreditar, estava indo muito rápido.

O Rô e a Ana foram colocar as roupas e eu subi de maca para a delivery, onde fui recebida por uma sorridente Mari, feliz da vida, me desejando feliz aniversário especial. Eu só repetia: “Mari, tá doendo muito, não vou conseguir”. A pessoa estava com quase 8 de dilatação e ainda não acreditava em si mesma!!! Nessa hora, era impossível não olhar o big relógio que fica no monitor da sala: 06:30. Uau! O tempo voou.

Quis sentar na privada e continuar na minha reza enquanto cada dorzinha me aproximava mais e mais do meu filho. O Rô e Ana voltaram pra sala e as meninas encheram a banheira pra mim. Não sabia como seria lá dentro, mas eu estava tão entregue às sugestões da equipe, que sucumbi à água. Não achava posição, mas de fato ajudava a aliviar um pouco.

Não sei explicar, mas as dores foram mudando. Pedia pro Rô não me tocar quando vinha uma nova contração.

Agora, pensando naquele momento, eu sei que encarava cada dor como uma a menos na batalha pra receber meu filho. Mas definitivamente não fui daquelas mulheres que amavam a dor por causa do que ela representa. A verdade é que cada uma delas me dava um medo gigante, um cansaço do tamanho do mundo. Só torcia pra acabar logo. E rezava. Como rezava!!

No intervalo entre elas, eu conseguia me manter irreverente e lembro de perguntar se aquele lugar onde eu estava era a partolandia. A Mari, sempre sorridente, me disse que sim, e me mandava palavras de amor e motivação. Cheguei a pedir duas vezes pras meninas me falarem sobre analgesia. Elas me diziam que essa era a hora que mostrava que estávamos no final. Me mantive firme apesar de não ter certeza de nada.

Alguém me apresentou a Marcia, a pediatra backup. Fiquei feliz em vê-la porque o pediatra só entra na sala quando o bebê está quase lá, não? E chegou o Paulo, meu iluminado médico. Veio até mim na banheira, com tanto carinho, ajoelhou, me deu um beijo, me disse que eu estava divando no parto em meu próprio aniversário. Depois brincou com a Mari dizendo que nunca uma despedida de barriga foi tão eficaz pra chamar um trabalho de parto! Consegui rir, eu acho.

Senti vontade de deixar a banheira e fui até a sala, onde a Ana me sugeria uns movimentos com os quadris e me ensinava um jeito de jogar a força da respiração pra baixo na hora da dor. Ainda bem que eu tinha essas pessoas pra me guiar! Sentia também uma descarga de energia tão grande em casa ossinho do meu corpo. Estava chegando a hora, eu podia sentir.

Por sugestão da equipe, me escorava de cócoras no Rô a cada nova contração. As dores já não eram tão insuportáveis como no começo, era muito mais vontade de fazer força, justo quando meu corpo já estava tão cansado. Mari e Ana me ajudavam com um tecido que eu podia puxar na hora da contração. O Paulo me lembrava de chamar pelo meu filho porque ele estava chegado. Não sei quanto tempo estávamos ali, e o Paulo teve a ideia de dar uma anestesiada local no meu períneo porque ele estava segurando a cabeça do Lorenzo toda vez que a contração a trazia pra fora. Depois de alguns minutos da anestesia, o Paulo sorriu e disse que tinha funcionado. Depois, ele avaliou a posição do Lorenzo e ele estava com a cabeça de lado no canal de parto. Só lembro dele me dizer pra aguentar firme porque ele viraria a cabeça do bebê, uma manobra pra ajudar. Não sei de onde tirei força pra aguentar, mas sei que em cinco minutos (ou mais?) tudo evoluiu mais rápido.

O silêncio entre uma contração e outra era lindo e respeitoso. A Mari trocou de lugar com o Rô na banqueta que me escorava pra ele poder ver a descida do bebê e recebê-lo.

Eu olhava pro Paulo, sentadinho na minha frente. O olhar dele era puro amor. Eu insistia com ele que não aguentava mais. Ele me perguntou: “você acha que ele é careca ou cabeludo?”. E colocou minha mão na cabeça do Lorenzo que já estava saindo. Senti o quentinho que era, olhei pro Ro e disse “ele é muito cabeludo”! Choramos!

Veio mais uma contração… o círculo de fogo. Não lembro de ter tido uma sensação tão forte e poderosa em toda minha vida. Até a próxima contração foram mais alguns longos minutos… alguém sugeriu que o Rô colocasse uma música pra ouvirmos enquanto ele nascia — tínhamos preparado uma bela playlist mas sei lá onde estava meu celular naquela hora. O Rô deu conta de escolher e tocar a música… o silêncio da sala ficou mais lindo ainda. De repente a janela lateral do quarto deixou entrar a luz daquela manhã de sábado… junto com ela, veio a contração final com todo o resto de grito que tinha dentro de mim. Quando dei por mim, o Lorenzo estava nos meus braços. Chorou por alguns segundo e depois abriu os olhos e os fixou em mim. O que eu disse pra ele? “Nós conseguimos, filho! Juntos! Você sabe nascer…. mamãe sabe parir!”. Ele tinha um cheiro quente e doce que nunca vou esquecer. A sala foi tomada de ternura. O Rô nos beijava sem parar. Eu olhava dedinho por dedinho. Cada ruguinha daquele rosto inchadinho. Sim, ele era um bebê grande! E sim ele nasceu!

Imediatamente toda dor se foi, e estávamos mergulhados num mar de ocitocina e amor. Ele ficou pele a pele comigo na primeira hora, não levou o colírio, não saiu de perto da gente, foi pro peito pra ir reconhecendo o cheiro e a anatomia. Foi avaliado no meu colo de onde ele jamais sairia por um bom tempo. O pai cortou o cordão depois que parou de pulsar. Não tomou banho por 24 horas e eu fiquei cheirando sua pele sem parar. Olhamos e nos despedimos da placenta com amor, o órgão que nos ajudou alimentando-o por tanto tempo. Teve respeito. Teve escolha informada. Teve amor de sobra.

Ele nasceu com 3,765 kg e 51 cm. Tive uma laceração natural. No dia do meu aniversário de 32 anos, experimentei uma sensação de renascer como uma nova mulher que pode tudo, super mulher mesmo! Tinha me transformado, seguindo meus instintos, sem pudor, buscando a melhor posição pra parir minha cria. E, claro, ali naquela sala, nasci como mãe, o meu maior desafio de vida até aqui.

O parto é, sim, da mulher, do bebê, do homem que acompanha. Mas eu nada teria alcançado sem a ajuda de grandes profissionais que me ensinaram o real valor da palavra humanizado. Estou ainda apaixonada pela contribuição de cada um de vocês neste processo tão transformador da minha vida.

Pra começar, um agradecimento e um abraço do tamanho do mundo no Paulo, que entrou na minha vida por acaso, e foi só amor e compreensão. Ele me ganhou quando me emprestou um livro que mudou minha vida (“Maternidade – encontro da mãe com a própria sombra”) e que me fez pensar: que médico empresta livros? Os humanizados! Obrigada por toda a paciência nesta caminhada e pelo jeito cheio de amor com que você nos ajudou no pré-natal e no parto. Seu profissionalismo e atenção carinhosa me deram a segurança necessária pra acreditar em mim e no meu corpo. E mostraram que um médico pode sim fazer um atendimento individualizado mesmo ajudando várias mulheres a parir todos os dias.

Outro abraço apertado vai pra Mari, que hoje atua como obstetriz, mas que topou doular pra nós, fazendo do parto do Lorenzo seu último como doula. Espero que tenha sido tão especial pra você como foi pra nós. Obrigada por cada visita, cada mensagem, cada massagem, cada minuto da sua compreensão e carinho para com meus medos. Tenho certeza de que você seguirá tão bem como parteira como nos atendeu como doula.

Ainda tem abraço apertado pra Ana, nossa querida obstetriz. Sempre muito profissional, você nos deixou muito confortável em cada decisão e em cada pergunta. Obrigada por nos acompanhar tão de perto e por segurar minha mão com tanto amor durante aquelas horas difíceis. Nunca vou esquecer como você seguiu cuidando da gente e me ouvindo na onda avassaladora do pós-parto. Empatia é a maior virtude deste mundo e isso você tem de sobra! Gratidão imensa!

E pra provar que Deus colocou vários anjos no nosso caminho, agradeço de coração a entrada da pediatra-fada na nossa delivery. Dra. Marcia, uma fada diferentona que ama o que faz e o faz com amor e paciência. Obrigada por cuidar tão bem do nosso gordinho naquela manhã, e depois do parto também. Não sei o que faria sem sua motivação pra segurar as pontas na amamentação e nesse puerpério-furacão!

Finalmente, agradeço ao meu companheiro e melhor amigo, meu marido Rodrigo, que foi só paciência, respeito e amor comigo em todas as nossas escolhas desde o início. Sem você esse parto não teria sido tão lindo.

E também agradeço ao meu filho, Lorenzo, pela força que teve pra encarar nossa primeira batalha juntos. A batalha pela vida. Com muita garra, seu parto nos ensina que bebês sabem, sim, nascer e só podemos dizer que algo não é possível depois de tentar. Obrigada, filho. Você apenas nasceu e já tem meu amor pra vida toda.